Analisando o texto editorial de Vidler, interpreto que segundo este, ao longo da história moderna da arquitectura formou-se a ideia de duas grandes tipologias: a primeira, advinda do Iluminismo, baseado na natureza simbolizada pela “primitive hut” de Laugier (Ler mais), como a origem racional das formas arquitectónicas.
A segunda, seria associada ao início da industrialização, baseada nas formulações de Le Corbusier, defendendo que a arquitectura deveria derivar dos processos de produção e da lógica da máquina.
Ambas acreditando no progresso através da ciência, da técnica, propondo que a arquitectura legitimasse as formas “naturais”, na primeira leitura, e as formas “industriais” na segunda, em cada uma das suas épocas.
Aceitando a crise absoluta das premissas do Movimento Moderno, emergiria uma terceira tipologia, inspirada na cidade tradicional, no seu tecido histórico, enquanto continuidade formal desta, não numa visão orgânica. Esta abordagem, visível em autores como Aldo Rossi ou os irmãos Krier, recusaria tanto o naturalismo abstracto do século XVIII como o tecnicismo dos finais do século XIX e XX. A cidade torna-se o próprio campo de classificação: os seus espaços, instituições e formas acumuladas no tempo são entendidos como um repertório que pode ser fragmentado, reorganizado e recombinado, não para repetir o passado, mas para gerar novos significados arquitectónicos.
Esta tipologia não procuraria justificar-se por funções sociais ou tecnológicas externas; mas em centrar-se na coerência formal e histórica da cidade em si.
Vidler sublinha que cada uma destas tipologias vê a arquitectura como legitimada por uma “natureza” externa — a “natureza” física no primeiro caso, a “natureza” da máquina no segundo. Isto significaria uma arquitectura dependente de um modelo externo à sua própria natureza, algo que a terceira tipologia viria a romper.
Esta terceira tipologia assumiria, segundo Vidler, um carácter crítico: contrapondo-se à fragmentação urbana e ao isolamento dos edifícios projetados pelo urbanismo moderno, defendendo a continuidade do tecido urbano, a clareza dos espaços públicos e uma relação consciente com a memória colectiva da cidade.
As formas seleccionadas do passado, carregadas de significados políticos e sociais, são transformadas para produzir novos sentidos — como no projecto de Rossi para a Câmara Municipal de Trieste, onde o tipo “prisão” (no sentido piranesiano) é reinterpretado criticamente. Recusando nostalgia, determinismos sociais ou ecletismos fáceis, esta nova corrente reivindicaria a cidade e a tipologia como fundamentos indispensáveis para restaurar um papel crítico e público à arquitectura contemporânea à época, finais dos anos 70.
Arquitectura e transgressão de Bernard Tschumi
A tese central de Bernard Tschumi em “Architecture and Transgression” parte da ideia de que a arquitectura só se torna “realmente” significativa quando ultrapassa as regras e limites que a definem.
É interessante depreender que a transgressão não surge como simples violação gratuita, mas como condição necessária para que novas possibilidades espaciais e conceptuais emerjam. Tschumi sustenta que a arquitectura vive num conflito constante entre espaço e uso, entre ordem e evento, e que é precisamente na fricção entre estas dimensões onde o acto arquitectónico adquire potência crítica.
O autor argumenta que toda a arquitectura contém uma tensão latente entre normas — programáticas, formais ou sociais — e os desejos e comportamentos que inevitavelmente as perturbam. Tal como na literatura ou na filosofia estruturalista, Tschumi compara a arquitectura a um sistema que só revela as suas estruturas profundas quando submetido ao acto da transgressão. Exemplos como movimentos do corpo, actividades inesperadas ou apropriações espontâneas diz demonstrar que o espaço arquitectónico nunca é neutro: produz e é produzido por actos que escapam ao controlo total da disciplina.
Tschumi defende que a transgressão não destrói a arquitectura — antes, renova-a, expõe a arbitrariedade das convenções e abre caminho para uma prática mais consciente e crítica. O arquitecto, ao reconhecer esta dialéctica, pode explorar novas articulações entre espaço, evento e movimento, recusando visões puramente formais ou funcionalistas. Assim, a arquitectura torna-se campo onde se experimenta limites, onde se repensa a relação entre o social e o espacial, onde a ruptura se afirma como condição produtiva para imaginar novos modos de habitar e projectar.
Para Tschumi, “evento” refere-se às acções, actividades, comportamentos e movimentos humanos que acontecem dentro (ou apesar) da arquitectura. Isto é, não é o espaço por si, nem a sua forma, mas o que ocorre neste.
O “evento” inclui tudo aquilo que os corpos fazem — desde o quotidiano mais banal até actos extremos ou inesperados — e que perturba, revela ou transforma o modo como o espaço é usado e percebido.
Penso que talvez a cristalização deste conceito tschumiano de evento revela-se no cinema num retrato naquilo que nos molda como humanos num sentido mais abstrato e mais louco de (assim) ser.
Fonte: https://www.usmodernist.org/
Mais: https://www2.uwe.ac.uk/faculties/CAHE/Documents/Research/Transgression/TransgressionFINAL.pdf


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