O professor arquitecto Pedro Abreu tem uma abordagem própria em relação ao conceito de conservação e restauro, e definição de monumento. Aqui sumarizo o seu pensamento

O pensamento do professor e arquiteto Pedro Marques de Abreu, docente na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, assenta numa abordagem fenomenológica e ontológica profundamente humanista da arquitetura.

A sua visão distingue-se das correntes puramente técnicas ou arqueológicas, focando-se na experiência humana do espaço e na transmissão da memória através do edificado. [1, 2, 3, 4]
Os eixos fundamentais do seu pensamento sobre a definição de monumento e o conceito de conservação e restauro organizam-se da seguinte forma:

1. A Definição de Monumento: Da Peça Arqueológica ao Lugar de Memória

  • Monumento como “Lugar de Memória”: Para Pedro Abreu, o monumento não deve ser encarado como um mero objeto arqueológico estático (um “môno”). Em vez disso, define-o como um feixe dinâmico de significados e memórias que traçam a sua própria vida transhistórica e metalinguística. [4]
  • A Experiência da Obra de Arte: O autor defende que uma construção realizada com o máximo rigor em direção às exigências da arquitetura pode vir a ser, ou não, um monumento. Contudo, sempre que a experiência física e espacial de uma construção atinge o estatuto de “obra de arte”, ela torna-se necessariamente um monumento. [5]
  • A Relação entre Monumento e Morada: Na sua obra Arquitetura: Monumento e Morada, explora como o edificado atua como um dos mais fortes “vencedores do esquecimento dos homens”, unindo o físico ao metafísico e perpetuando a vivência coletiva no tempo. [6, 7]

2. O Conceito de Conservação e Restauro: Uma Abordagem Humanista

  • A Centralidade do Homem: Fiel à premissa de que a “arquitetura é a última das profissões verdadeiramente humanistas”, Abreu argumenta que qualquer ação de restauro que ignore o Homem na sua totalidade (psicológica, social e metafísica) deixa de ser arquitetura para se tornar mera técnica construtiva. [3, 7]
  • A Operatividade do “Porquê Restaurar?”: Antes de definir o que ou como restaurar, o arquiteto defende que a pergunta filosófica “porquê restaurar?” é absolutamente imprescindível e estritamente operativa na praxis restaurativa. O restauro deve servir para reatar um diálogo comunicativo e de transferência de informação entre a obra e o utilizador contemporâneo. [3, 8]
  • Crítica à Conservação Integral Cega: O professor afasta-se de visões rígidas de conservação integral abstrata que anulam a legibilidade do espaço. Ele adverte contra intervenções que gerem desorientação e ambiguidade espacial, defendendo que o restauro deve devolver clareza à revelação da arquitetura (conceito central na sua tese de doutoramento, Palácios da Memória II). [5, 9]

3. A Valorização da Arquitetura Tradicional e Vernácula

  • O Funcionamento Testado pelo Tempo: Fora do âmbito dos grandes monumentos classificados, Abreu estende a sua visão patrimonial à arquitetura tradicional e vernacular. Defende-a como um processo de transmissão oral, livre de desenhos estáticos, onde cada geração de mestres-construtores introduz melhorias subtis baseadas na experiência real do habitar. [10]
  • Oposição à “Tábua Rasa” Modernista: Critica a postura de rutura radical de certas correntes modernas que tentaram anular o passado sem testar a qualidade habitacional das suas propostas na continuidade histórica, valorizando o património edificado como um repositório acumulado de lições práticas de arquitetura. [10]

Como o autor articula estes conceitos na leitura fenomenológica do espaço edificado. [2, 6, 11]

[1] https://www.cienciavitae.pt
[2] https://www.cienciavitae.pt
[3] https://home.fa.ulisboa.pt
[4] https://ler.letras.up.pt
[5] https://home.fa.ulisboa.pt
[6] https://repositorio.ulisboa.pt
[7] https://repositorio.ulisboa.pt
[8] https://recipp.ipp.pt
[9] https://repositorio.ulisboa.pt
[10] https://www.youtube.com
[11] https://teses.usp.br

Em que medida toca na The Lamp of Memory de Ruskin no seu pensamento, o que vem daí para Abreu?

No ensaio “Arquitectura: Monumento e Morada” e na sua subsequente investigação académica, o professor Pedro Marques de Abreu analisa e desconstrói explicitamente o famoso aforismo do Capítulo VI de The Seven Lamps of Architecture (1849) de John Ruskin: “Não há senão dois fortes vencedores do esquecimento dos homens, Poesia e Arquitectura; e a última de algum modo inclui a primeira e é mais forte na sua reality”. [1]

Para Pedro Abreu, a formulação de John Ruskin sobre a Lâmpada da Memória (The Lamp of Memory) não é um mero manifesto romântico ou saudosista, mas sim um fundamento ontológico e fenomenológico crucial para a sua própria teoria da arquitetura. [2, 3]

O pensamento de Abreu extrai e desdobra três aspetos fundamentais dessa herança ruskiniana:

1. A Arquitetura como Vencedora do Esquecimento

John Ruskin defende que os edifícios são repositórios físicos da história e da cultura humana, feitos para durar e refletir o espírito da sua época. [4]

  • O que vem daí para Abreu: O arquiteto assume que a arquitetura possui uma “potência de realidade” superior a qualquer outra arte (inclusive a poesia), porque ela nos acolhe fisicamente. Ela materializa e fixa a memória no espaço urbano, permitindo que as gerações futuras habitem, literalmente, o legado psicológico e social do passado. O monumento passa a ser entendido não como “pedra morta”, mas como um testemunho vivo. [1, 5]

2. A “Ontologia avant la lettre” e a Crítica ao Estilo

A leitura comum de Ruskin tende a rotulá-lo como um mero defensor do estilo Gótico contra o Classicismo. Abreu contesta vigorosamente esta visão redutora na sua investigação (como no artigo Ruskin’s Ontology of Architecture). [2]

  • O que vem daí para Abreu: O professor resgata um Ruskin filósofo, cujas observações na Lâmpada da Memória são fenomenológicas avant la lettre. Significa que a arquitetura em Ruskin é julgada a partir da experiência altamente sensível e humana do espaço, muito antes de Martin Heidegger teorizar sobre o conceito de “habitar”. Abreu extrai daqui a validação para a sua abordagem fenomenológica: a arquitetura autêntica reside na perceção existencial do sujeito em relação ao edificado, e não nas regras académicas de estilo. [2]

3. O Dilema do Restauro: Da Morte da Matéria à Revelação do Espírito

Na Lâmpada da Memória, Ruskin adota uma postura radicalmente anti-restauro, afirmando que o restauro de um edifício antigo é “a mais total destruição que um edifício pode sofrer” e que é impossível ressuscitar o espírito do mestre construtor. [3]

  • O que vem daí para Abreu: Em vez de aceitar a atitude puramente fatalista ou de “ruína abandonada” de Ruskin, Abreu opera uma transição conceptual na sua tese de doutoramento (Palácios da Memória II – A Revelação da Arquitetura). Ele aceita a premissa de Ruskin de que a matéria envelhece e decai de forma insubstituível, mas propõe que o restauro contemporâneo deve focar-se em revelar a clareza espacial e o diálogo comunicativo da obra com o utilizador. Para Abreu, o restauro não deve fingir que o tempo não passou (ecoando o aviso de Ruskin), mas sim garantir que a “informação” e a “memória” do espaço arquitetónico continuem legíveis e operativas no presente. [3, 6, 7]

Como Pedro Abreu concilia esta visão poética de Ruskin com as metodologias de restauro mais científicas e digitais que aborda na sua investigação? [8]

[1] https://repositorio.ulisboa.pt

[2] https://edizionicafoscari.unive.it

[3] https://www.scribd.com

[4] https://victorianweb.org

[5] https://www.researchgate.net

[6] https://repositorio.ulisboa.pt

[7] https://repositorio.ulisboa.pt

[8] https://disegnarecon.unibo.it

No seu artigo científico intitulado “‘Tu’, ou da Leitura da Arquitectura”, o arquitecto aborda a arquitetura não como uma mera técnica ou objeto isolado, mas como um ato profundo de comunicação, alteridade e hospitalidade. [1, 2, 3, 4]

Abaixo estruturam-se os pontos fundamentais dessa perspetiva existencial:

1. O Conceito do “Tu” e a Abertura ao Outro

Para Pedro Abreu, o ato de projetar e vivenciar a arquitetura assemelha-se ao momento em que dizemos “tu” a alguém. [4, 5, 6]

  • Quebra de barreiras: Dizer “tu” exige um movimento duplo de abertura e acolhimento. Os limites rígidos entre o “eu” (arquiteto/habitante) e o “não-eu” diluem-se. [4]
  • Hospitalidade radical: Trata-se de admitir o outro na nossa própria casa existencial, concedendo-lhe a liberdade de reconfigurar o espaço. [4]

2. A Arquitetura como “Gesto” Intersubjetivo

A arquitetura distingue-se da mera construção civil porque carrega um sentido existencial que vai além da função utilitária. No modelo teórico do autor: [3]

  • Comunicação de um sentido: A obra de arte arquitetónica expressa algo de íntimo (“de si”) que se projeta no mundo para ser interpretado por outrem (“para outro”). [3, 4]
  • O Gesto: O significado de um espaço materializa-se através dos gestos e movimentos de quem o habita — o caminhar, o olhar, o cruzar de uma soleira. É essa experiência corpórea que valida o sentido do projeto. [3]

3. A Habitação como Necessidade Antropológica

O autor defende fervorosamente que a arquitetura está intrinsecamente ligada à experiência humana da habitação. Ao contrário de máquinas ou animais, o ser humano necessita que o espaço edificado ressoe na sua própria psicologia e memória. Assim, criar arquitetura é oferecer um abrigo físico e emocional que legitima a existência do outro. [7, 8]

4. A Lição da Arquitetura Tradicional e Vernácula

Em palestras e debates sobre o ser da arquitetura, o Prof. Pedro Marques de Abreu contrasta esta dimensão humana com os excessos do modernismo abstrato. Na arquitetura tradicional (sem desenhos ou registos escritos), o mestre construtor criava testando a habitabilidade na própria pele, refinando o espaço de geração em geração. O foco não era o ego do criador, mas a entrega de um habitar melhorado para a comunidade (“para o outro”). [9, 10]

Para aprofundar este tema:

  • A análise do ensaio “Eupalinos Revisitado” de Pedro Abreu sobre a ontologia da arquitetura.
  • A ligação entre este conceito e a filosofia de autores como John Ruskin ou Martin Heidegger.
  • Detalhes sobre o método do “Gesto” para interpretar edifícios históricos. [2, 3, 5, 10]

[1] https://pt.linkedin.com

[2] https://repositorio.ulisboa.pt

[3] https://home.fa.ulisboa.pt

[4] https://www.academia.edu

[5] https://www.researchgate.net

[6] https://rodihome.com

[7] https://www.cienciavitae.pt

[8] https://www.academia.edu

[9] https://www.youtube.com

[10] https://revistaarqurb.com.br

Agradecemos as aulas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.Campos obrigatórios marcados com *

Política de Privacidade e Cookies

O nosso site usa cookies funcionais para melhorar a sua experiência, pelo que ao navegar está a aceitar o uso desses cookies.
Porém, querendo dar-lhe a escolha de preservar a sua privacidade, pedimos-lhe que defina as seguintes opções: